Passeando de bicicleta pelo Jequiezinho, Alto da Prefeitura, Casas Populares, Agarradinho e Pau Ferro, me veio à tona uma reflexão sobre os trinta e nove anos que me separam das ruas onde morei em Jequié.
O bairro Jequiezinho era o lugar da classe média, diga-se, de quem podia comer todos os dias, tinha água e luz em casa, e até um aparelho de TV, mesmo que fosse em preto e branco. O Alto da Prefeitura era um descampado, um deserto, povoado apenas pelo prédio imponente da sede do governo municipal, sobre o topo de um morro escaldante, de onde se podia ver boa parte da cidade. As Casas Populares era um bairro emergente, mas habitado por quem tinha condições, apesar de serem financiadas pelo antigo sistema Banco Nacional de Habitação – BNH, o equivalente hoje ao Minha Casa Minha Vida.
O Agarradinho era uma espécie de puxadinho das Casas Populares, mas por questões óbvias, quem foi morar ali foram os enjeitados, os fudidos, os lascados, a escória da sociedade jequieense, inclusive eu e minha família. O nome oficial era URBIS IV, seguindo a lógica de que as Casas Populares eram a “Urbis I”, e os demais puxadinhos eram Urbis II, III e IV. Mas o nome oficial não ‘pegou’, para não confundir com os emergentes moradores das Casas Populares. E “Agarradinho” veio a calhar, pois as casas eram tão pequenas e ‘coladas’ umas nas outras, que o povão logo associou ao brinquedo “Agarradinho”, um ursinho de uns dez centímetros que grudava da roupa das pessoas, e que se ostentava agarrado no cabelo, na mochila etc. Muitos anos depois a prefeitura tentou rebatizar o bairro, mas o nome Agarradinho ‘agarrou’ e não soltou mais.
O Pau Ferro, nos anos 1983, foi um dos meus destinos de morada, após ser despejado com minha mãe e sete irmãos da casa de familiares, onde vivia de graça, por conta do medo dos donos de que a gente ‘tomasse’ a casa. Pagaram aluguel para nós durante um tempo, e o valor era tão baixo que a periferia da periferia era nossa morada. Entre elas as ruas da Bosta, rua Teixeira de Freitas, rua Senhor do Bomfim, Travessa Teixeira de Freitas. Esses lugares sempre foram associados com violência, como se a fome, a falta de saneamento básico, desemprego, desestruturação familiar, falta de educação de qualidade, descaso com a saúde etc não fossem a própria violência do Estado, que fomentam outras violências simbólicas e até físicas.
O certo é que esse embrião do caos ainda existe, e não mudou nada – ou quase nada. O aspecto é de que o espelho está mofado, poucas lembranças estão nítidas, mas o básico está lá. E atualmente a Cidade Sol, título que a destacava no cenário nacional, disputa o de cidade mais violenta do país. Pormenores à parte, onde antes eu andava tirando fotos, catando lixo, buscando a sobrevivência nos rejeitos dos esgotos, hoje já não sei mais onde pisar sem pedir licença ou correr o risco de estar em um território proibido. Mas como não há placas alertando para isso, de vez em quando o instinto da tartaruga de voltar às origens me ataca, e eu vou. Em uma dessas ruas por onde pedalava, estava um grupo sentado à calçada. Pensei se deveria passar em frente ou entrar em um dos becos que eu ainda guardo de memória as entradas e saídas. Resolvi apostar, passei, saudei a todas e todos, e o reflexo de minha pobreza de pensamento estampava o rosto familiar de cada pessoa ali. Não eram perigosas – como também nã0 sou; não eram delinquentes – como também não sou. Era o meu espelho de uma condição longínqua, de onde só saí parcialmente, mas onde permaneço em afeto, memória e raízes.
Senti um alívio pela experiência de me sentir vivo, e ainda reconhecer que sou tão igual quanto era nos idos anos oitenta, apesar de já não experimentar há muitos anos a falta de casa, comida e o sentimento de abandono.